Por Karina Betencourt, aluna da Faculdade Cásper Líbero
O Visão da Favela surgiu em 1995 na Vila Marieta, Osasco-SP. É composto por Cezinha (vocalista/compositor), Ângelo (MC), Gino (vocalista/compositor), Caveira (DJ) e Adriana (backing vocal). A proposta do grupo é fugir do modelo de rap que se vale de palavrões para tratar da realidade da favela e procurar uma linguagem mais suave e dançante. As mesmas pessoas que ouviam a batida sisuda dos Racionais MC’s partiram para um ritmo mais embalante. Não para se desgarrarem de suas raízes, mas para conseguir mais espaço na mídia. E, sutilmente, os grupos - tanto antigos, como novos – têm se transformado para passar sua mensagem. Voz da Favela é um dos grupos adepto dessa nova proposta.Nesta entrevista, realizada durante um ensaio na casa do DJ Caveira.
Quando o grupo começou e qual era o objetivo inicial?
Cézinha: Começou em 1993, com o Neive, o Gino e o Ângêlo. Mas só firmou mesmo em 1995, quando entrei. A proposta era ser exatamente o que o nome diz: a visão da favela. Escutávamos muitas músicas sobre política, preconceito racial, etc e então, passamos a escrever sobre isso. Queríamos passar uma visão da favela, não no sentido negativo do que acontece na periferia. Ao contrário, pretendíamos passar uma imagem positiva do nosso povo e com isso, transformar a forma como as pessoas enxergavam a gente. Até como dizia Malcom X, "quem aprendeu, aprendeu; quem não aprendeu, não aprende nunca mais". A gente tenta falar sobre a nossa realidade para as outras pessoas, mas infelizmente, só quem quer entende a gente.
E qual é o objetivo atual de vocês?
Cézinha: Levar a música para todos os lugares. Procuramos retirar os palavrões das letras, para que o filho do cara que trabalha na Avenida Paulista, da lavadeira daqui da vila e o "Manoel da esquina" possa escutar o nosso rap e não se sinta ofendido. Ainda buscamos falar sobre o que a gente pensa e sente, escrevendo para as crianças, para as mulheres, para quem quiser ouvir.
Tirar o palavrão de suas composições para mudar a forma como as pessoas vêem o rap, não seria uma imposição que a mídia tem feito à própria cultura hip hop?
Cézinha: Não, na minha opinião. Não queremos que o nosso trabalho pare por aqui. Existem barreiras no mercado musical, principalmente sociais. A música tem uma influência muito forte; não é "moda", mas meio de informação. Alguns grupos têm se conscientizado disso, e por essa razão, filtram o que colocam em seus raps, justamente para que a música deles seja aceita em todos os lugares.
Os Racionais MC's foram despertaram a atenção da mídia, a partir da venda de mais de 1 milhão de cópias do álbum "Sobrevivendo no Inferno", em 1997. Agora, a retomada do hip hop está se dando através da moda "black music" importada dos Estados Unidos. O que mudou neste período?
Gino: Os Racionais abriram as portas, mas antes deles, existiu Jair Rodrigues, com o "deixa que digam, que pensem, que falem". Da mesma forma que houve essa mudança, a gente não pensa em esquecer as nossas origens. A gente pode fazer música mais dançante, uns raps falando sobre a periferia, mas o que é moda passa. O verdadeiro é que sempre fica.
Ângelo: Vê o samba: antes era cantado só no morro. Depois virou moda, as pessoas perceberam que era bom, em alguns lugares ainda permaneceu a raiz, mas mesmo com a onda do pagode, o verdadeiro samba partido-alto ainda é considerado o melhor. Esse nunca morre.
Como os grupos de rap podem preservar o espaço que têm ganhado a cada dia? Como evitar que a imagem do grupo seja deturpada pela mídia
Cézinha: Hoje a favela tá na moda, né? Pode ver: todo mundo quer andar de bombeta do lado, calça larga, falar gíria. A realidade é que essa elite que quer se igualar a gente não consegue reproduzir a nossa união, a essência da favela. O dinheiro deles nunca vai comprar o talento que existe dentro da favela. O que a nossa ginga traz, o que a nossa música faz, o "boy" não consegue fazer igual.
Ângelo: Pode ver: quando querem explorar algo bom, a realidade, eles [a mídia] vem aqui no morro pegar moleque pra representar em filme. Nossos meninos da capoeira, por mais que eles queiram, têm um jeito especial de gingar.
Cézinha: Por mais que a imagem da favela seja explorada, qualquer um sabe que ela nunca vai poder ser totalmente bem reproduzida. As pessoas sabem o que acontece no morro, ou no mínimo tem uma idéia do que pode acontecer. Não tenho medo de ser mal-interpretado pelos outros. Quem realmente gostar da nossa música vai entender a nossa história, e os forem mesmo do movimento é que vão levar a imagem positiva do grupo. E isso é quem vai acontecer com os outros grupos também. “Só quem é, é que representa!”
Por Lucas Cirillo, aluno do curso de Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero
Até os oito anos de idade, minha consciência sobre os negros se formava com piadinhas racistas desse tipo. Estudei em uma instituição onde a maioria arrebatadora era branca. Dava pra contar nos dedos quantos pretos podiam pagar aquele valor por mês. Um deles, ou melhor, umas delas, era Gabriela.
Certa vez estávamos brincando em uma aula de música quando a professora - meio hippie - resolveu pegar no pé de quem abusava de sua paciência. “Lucas, cadê sua flauta?” “Eh!...Ãh...Uhm...esqueci em casa”. Pronto, livre - certo de que ela ia se invocar com o gordinho do meu lado, relaxei. Foi quando Gabi, uma boa aluna, me entregou: “É mentira, professora, a flauta dele está na mochila”. “Cala boca sua preta!”, eu disse, num ato quase falho.
Fui arrastado para fora da sala pelas mãos de Dona Isabel, a professora hippie. É claro que a Gabi se sentiu ofendida, mais com a conotação da frase do que com o tom da minha voz. Por quê?
Talvez a resposta para tal pergunta nos ajude a refletir sobre a importância de existir uma data como o Vinte de Novembro.
Creio que ainda falte no Brasil uma afirmação da raça negra, apesar das diversas camisetas “100% preto” estampadas por aí. Falta uma afirmação substancial, algo palpável que incomode quem não está incomodado.
Talvez se o 20 de Novembro não passasse em branco e já na época dos meus pais já vigorasse, talvez Gabriela, responderia, estufando o peito:
-“Sou preta mesmo e daí? Olha pra classe, metade aqui é negro. Metade da escola é negra. Nosso presidente é negro, quem inventou essa porcaria de samba que você tanto ouve? Fomos nós! Então me diz o que seria de qualquer Guns n’s da vida, sem a existência do Jimmy Hendrix? O que seria da música sem Miles Davis, da literatura sem Machado de Assis? Dos loucos sem Bob Marley? Já era a divisão, meu amigo!"
Como em um filme, a câmera sai da sala pela janela e se movienta pra cima, vemos um plano geral da minha escola e lentamente sobem os créditos. Troco de canal na minha cabeça e lembro que na hora em que falei aquilo pra minha grande amiga, todos na sala riram, e como.
Talvez a atitude daquele pivete – eu mesmo, anos atrás – sirva para provar que o Vinte de Novembro, dia da morte de Zumbi, é mais do que necessário. Vem com endereço e destinatário certo: o racismo nosso de cada dia.
Por Gabriela Watson
Nos últimos vinte anos, o número de estudantes negros em universidades dobrou. De um para dois. Imagine-se entrando numa sala de aula na qual, em metade das cadeiras, estão sentados alunos negros e negras, logo em seguida, entra um professor negro. Admita que isso causaria surpresa a quem quer que fosse, inclusive , para ser honesta, eu também me surpreenderia.
Por outro lado se, numa sala de aula, estiverem apenas um ou dois negros, não há reação alguma, afinal: isso é normal, a vida é assim. Mas isso é normal mesmo? A falta de negros na universidade ocorre tanto nas cadeiras de estudantes quanto nas salas de professores, mas encontramos muitos afro-descendentes na cozinha ou vigiando corredores e portas.
Segundo dados publicados pelo IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2001 negros e negras somavam 45% da população brasileira, enquanto a porcentagem de professores universitários negros era inferior a 1% do total.
O Manifesto em favor da lei de cotas e do estatuto da igualdade racial, publicado pela Folha de S.Paulo em 3 de julho de 2006, dizia: “Colocando o sistema acadêmico brasileiro em uma perspectiva internacional, concluímos que nosso quadro de exclusão racial no ensino superior é um dos mais extremos do mundo. Para se ter uma idéia da desigualdade racial brasileira, lembremos que, mesmo nos dias do apartheid, os negros da África do Sul contavam com uma escolaridade média maior que a dos negros no Brasil no ano 2000; a porcentagem de professores negros nas universidades sul-africanas, ainda na época do apartheid, era bem maior que a porcentagem dos professores negros nas nossas universidades públicas nos dias atuais”.
Sobre a disparidade dos números referentes aos negros no ensino superior, a principal justificativa é feita mencionando as condições sociais em que se encontram esses indivíduos.
Pouco destaque é dado ao fato de a própria sociedade criar mecanismos para que os negros não ascendam socialmente. Isso se dá de diversas formas, seja nos anúncios de empregos que exigem ‘boa aparência’, seja no acesso ao ensino superior: estuda nas universidades públicas quem tem recursos para pagar e estuda nas universidades pagas quem não tem condições para isso.
Este tipo de mecanismo foi chamado pelo jornalista Elio Gaspari de política de ação negativa, na matéria “Professores negros sumiram da fotografia. Ela branqueou o magistério do Rio de Janeiro nos anos , publicada na Folha de S.Paulo em 6 de setembro de 2006.
O jornalista traz à tona uma das maneiras de manter o negro nas classes sociais inferiores. Nessa matéria são abordados os resultados do livro “Diploma de Brancura: Raça e Política Social no Brasil, 1917- escrito pelo professor americano Jerry Dávila (Diploma of Whiteness, 2003), que fala sobre o fato de os professores negros terem deixado de fazer parte do quadro de docentes do sistema educacional da cidade do Rio de Janeiro. "Resulta que, antes de 1920, cerca de 15% dos professores fotografados eram “de cor”, no dialeto da época, afrodescendentes, no de hoje. Muitos deles estavam em escolas vocacionais. Era negro o diretor da escola municipal que formava os professores. Depois de percentagem vai para 2%. (...) Os mestres negros dos anos 20 foram substituídos pro professoras brancas".
Gaspari aponta o motivo que provocou a ausência do negro lecionando: “Exigia-se um custoso enxoval, com luvas brancas”. Em 1942, de 171 professoras diplomadas, só 12 (7%) eram afro-descendentes. O jornalista é enfático sobre este processo: “Conseguira-se o branqueamento dos diplomas. Foi um processo elitista, racional e bibliograficamente sofisticado”.
Desta forma, verifica-se que, em alguns casos, não é o negro quem não conseguiu galgar posições sociais, o que ocorre é sua exclusão das posições de destaque na sociedade. O estudo do IBGE, “Características da População a Cor ou Raça nas Seis Regiões Metropolitanas”, mostra que o negro com nível superior de estudo encontra mais dificuldade do que se pensa para colocar-se no mercado de trabalho. A explicação para isto está no imaginário social, no qual ainda persiste o mito de que o negro não é capaz de desempenhar funções de destaque e comando na sociedade, ficando reservadas para ele as funções subalternas. Caso contrário, um negro com diploma universitário teria mais facilidade para encontrar emprego.
O embranquecimento dos professores é uma ação que ainda acontece, pois os negros continuam sendo muito poucos entre os professores universitários, em cargos de gerência, em cargos de confiança. A crença preconceituosa na incapacidade do negro influencia até no futebol: quase não se vê goleiros afro-descendentes, ao contrário das outras posições desse esporte, em que os negros são maioria.
A igualdade das pessoas, por enquanto, continua sendo o “mito da democracia racial”, um dos caminhos para reverter essa situação é a adoção de políticas de afirmações positivas, como por exemplo, a implantação de cotas no ensino superior e no mercado de trabalho, previstas no Estatuto da Igualdade Racial, elaborado pelo senador Paulo Paim.